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Tarifas, incerteza e inteligência logística: o que a conferência da ABPL revela sobre o novo comércio internacional

Por João Rezende

No dia 9 de setembro de 2026, acompanhei em Doral, na Flórida, um encontro promovido pela Associação Brasileira de Profissionais de Logística e Supply Chain nos EUA (ABPL), reunindo autoridades, executivos e especialistas para discutir tarifas, comércio exterior, logística e os desafios que estão redesenhando as cadeias internacionais.

Entre as apresentações de Marco Farani, Christi Fraga, Welber Barral, Thiago Covre, Leonardo Capra e João Granato, uma percepção ficou especialmente clara para mim: não podemos mais estruturar operações internacionais esperando que o mercado volte a ser previsível.

Tarifas, conflitos, tensões geopolíticas, oscilações do petróleo, eventos climáticos, congestionamentos portuários e disponibilidade de equipamentos passaram a fazer parte do planejamento cotidiano das empresas.

Mais do que tentar prever o próximo problema, precisamos aprender a operar em um ambiente no qual a incerteza se tornou permanente.

Tarifas não são apenas uma questão tributária

Na exposição de Welber Barral, um dos pontos importantes foi a necessidade de observar a política tarifária dos Estados Unidos além das decisões conjunturais.

Tarifas podem continuar sendo utilizadas como instrumento de política comercial e proteção econômica. Para quem opera internacionalmente, isso significa que decisões sobre mercado, preço, contrato, origem e destino precisam considerar uma variável que pode alterar rapidamente a competitividade de determinado produto.

Também foram discutidos movimentos envolvendo Mercosul e mercados como Canadá, Índia e Emirados Árabes Unidos, além da ampliação das relações comerciais entre Brasil e México.

A leitura que faço é que diversificação deixou de ser apenas uma estratégia de crescimento e passou também a ser uma estratégia de proteção.

Uma empresa excessivamente dependente de determinado mercado, fornecedor, rota ou condição tarifária carrega uma concentração de risco que muitas vezes só se torna visível quando ocorre uma ruptura.

A logística internacional precisa trabalhar com alternativas

Thiago Covre, responsável pela América Latina na A.P. Moller – Maersk, trouxe para a discussão aquilo que operadores internacionais estão acompanhando diariamente: guerras, petróleo, eventos climáticos, congestionamentos e limitações operacionais continuam interferindo nas rotas marítimas.

Durante a apresentação, foi mencionado como exemplo um período de espera de até 11 dias para operação em Xangai.

Um atraso desse tamanho não termina no porto.

Ele pode afetar conexão de navios, disponibilidade de equipamentos, estoques, compromissos comerciais, custos financeiros e o planejamento do cliente no destino.

Por isso, plano B não pode ser desenvolvido quando o problema já aconteceu.

Revisar lead times, acompanhar disponibilidade, antecipar documentação, estudar rotas alternativas e manter informações atualizadas passaram a fazer parte da proteção da operação.

O operador logístico está se tornando um engenheiro da operação

Outra reflexão importante veio de Leonardo Capra, presidente da Draco Freight Logistics Corporation.

Em um ambiente de mudanças constantes, atualização deixou de ser periódica. Muitas vezes precisa ser diária.

Isso também modifica o papel do profissional de logística.

Não basta contratar um transporte e acompanhar a carga. É necessário compreender como fornecedor, embarcador, armador, terminal, aduana, transporte terrestre, armazenagem e cliente final estão conectados.

Tenho chamado essa visão de engenharia logística.

O profissional precisa entender o terreno da operação, identificar quem controla cada etapa, reconhecer os pontos de vulnerabilidade e construir alternativas antes que uma restrição se transforme em custo ou atraso.

Nesse cenário, eficiência não significa simplesmente encontrar o menor frete.

Significa encontrar uma solução capaz de equilibrar custo, prazo, segurança, conformidade e continuidade comercial.

Inteligência artificial acelera. Inclusive o erro.

A apresentação do professor João Granato trouxe outro ponto que considero fundamental.

Estamos incorporando inteligência artificial cada vez mais rapidamente ao comércio exterior. Ela pode ajudar na pesquisa, organização de informações, análise de cenários e produtividade das equipes.

Mas existe um risco que não podemos ignorar.

Se a informação de origem estiver errada, incompleta ou mal interpretada, a inteligência artificial poderá simplesmente acelerar uma decisão equivocada.

Comércio internacional possui detalhes que fazem enorme diferença: classificação fiscal, origem, destino, documentação, tributação, Incoterms, características da carga, regras aduaneiras e condições específicas de cada operação.

Por isso, tecnologia não elimina a necessidade de conhecimento.

Ao contrário. Quanto mais capacidade tecnológica colocamos nas mãos dos profissionais, maior precisa ser a capacidade de formular perguntas, validar fontes e interpretar respostas.

Informação só gera vantagem quando existe capacidade de execução

Depois das apresentações e das conversas realizadas durante o encontro, minha principal conclusão é que o comércio exterior está exigindo uma combinação cada vez mais difícil de encontrar: informação confiável, conhecimento aplicado, parceiros preparados e capacidade de execução.

Agilidade sem informação aumenta o risco.

Informação sem capacidade de execução também não resolve.

É justamente nesse espaço que vejo uma oportunidade importante para empresas que atuam no comércio internacional.

Não precisamos acertar todas as previsões. Precisamos construir organizações capazes de identificar mudanças, revisar cenários e reagir antes que uma alteração externa comprometa toda a operação.

Essa também é uma visão que procuramos desenvolver na Oriental Comex: aproximar inteligência de mercado, experiência operacional e educação em comércio exterior para ajudar importadores e exportadores a compreender melhor as decisões que estão tomando.

Não existe uma solução universal. Uma alternativa adequada hoje pode deixar de ser competitiva amanhã porque mudou o frete, a tarifa, a disponibilidade de equipamento, a rota, a regulamentação ou o próprio mercado.

Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes atualmente não seja:

“Qual é a melhor operação?”

Mas sim: “Quais alternativas teremos se as condições dessa operação mudarem amanhã?”

A conferência da ABPL reforçou algo que tenho observado no mercado: a vantagem competitiva não estará em eliminar a incerteza, mas em estar preparado para operar dentro dela.

E isso exige conhecimento, informação atualizada, parceiros confiáveis e disciplina para transformar inteligência em decisão.

João Rezende é CEO da JFB Market Supply e acompanha mercados internacionais, comércio exterior, sourcing e desenvolvimento de negócios entre Brasil, América Latina, Estados Unidos e Ásia.

Nota editorial: este artigo foi elaborado a partir das anotações e percepções de João Rezende durante o encontro da ABPL realizado em Doral, Flórida, em 9 de setembro de 2026. Dados, percentuais, projeções econômicas e condições tarifárias mencionados durante a conferência devem ser validados em fontes oficiais e conforme a classificação específica de cada produto antes de orientar decisões comerciais, contratos ou embarques.