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Quando o fornecedor vira concorrente: a China mais próxima pode mudar a distribuição no Brasil

Oriental Comex - China
Foto: Oriental Comex

Há alguns anos acompanhamos uma transformação profunda no mercado de serviços provocada pela inteligência artificial. Atividades que antes dependiam necessariamente da contratação de profissionais ou empresas passaram a ser executadas, pelo menos em parte, pelo próprio cliente.

Alguns conseguiram bons resultados. Outros cometeram erros. Empresas precisaram se adaptar, profissionais tiveram que rever sua forma de trabalhar e determinados serviços passaram por forte pressão de preço.

Por que começo falando de inteligência artificial em um artigo sobre comércio internacional?

Porque vejo um movimento semelhante começando a acontecer na distribuição de produtos.

A expansão da estrutura do Mercado Livre na China precisa ser analisada além da disputa entre marketplaces. Quando uma plataforma latino-americana cria infraestrutura para facilitar o acesso de empresas chinesas aos consumidores da região, ela começa a reduzir uma barreira que durante décadas sustentou parte do modelo tradicional de importação e distribuição.

A pergunta é simples: O que acontece quando o seu fornecedor passa a ter condições de vender para o seu cliente?

O acesso à China já não é o mesmo diferencial

Durante muito tempo, importar da China exigia acesso, relacionamento e conhecimento operacional. Encontrar fornecedores, negociar, acompanhar produção, consolidar mercadorias, transportar, nacionalizar e distribuir criava uma barreira natural de entrada.

Essa complexidade continua existindo. Mas parte da barreira de acesso está diminuindo.

O Mercado Livre vem ampliando sua estrutura de Cross-Border Trade e desenvolveu o Full China, solução destinada a facilitar a operação de empresas chinesas interessadas nos mercados latino-americanos. Pela estrutura, vendedores podem enviar seus estoques para um armazém na China, enquanto a plataforma assume etapas da logística internacional e da entrega aos compradores. A documentação técnica da própria companhia também descreve um modelo para vendedores chineses no qual o Mercado Livre administra logística, precificação final e exposição no marketplace.

Conheça o Full China do Mercado Livre

Isso muda a equação porque o fornecedor que anteriormente dependia de diferentes intermediários para alcançar determinados mercados começa a encontrar novos caminhos até o consumidor.

Nos Estados Unidos, essa distância já parece menor

Vivendo e fazendo negócios nos Estados Unidos, percebo isso de maneira bastante concreta.

Hoje consigo comprar determinados produtos diretamente da China e recebê-los em poucos dias. Evidentemente, Brasil e Estados Unidos possuem realidades tributárias, regulatórias e logísticas diferentes. Não podemos simplesmente transportar uma experiência de um mercado para outro.

Mas podemos observar a direção.

Quando plataformas, tecnologia e logística reduzem progressivamente o tempo e a complexidade da compra internacional, “conseguir trazer um produto da China” deixa, sozinho, de representar a mesma vantagem competitiva.

E esse é um ponto que importadores e distribuidores brasileiros precisam observar.

O intermediário não desaparece. Ele precisa mudar de função

Não acredito que esse movimento represente o fim do importador ou do distribuidor.

Operações internacionais continuam exigindo conhecimento de mercado, desenvolvimento e qualificação de fornecedores, controle de qualidade, certificações, adequação regulatória, logística, disponibilidade de estoque, assistência e construção de marca.

O risco está principalmente nos negócios cuja vantagem depende quase exclusivamente da intermediação: encontrar um produto na China, importar e revendê-lo no Brasil.

Quanto menor for a distância entre fábrica e consumidor, menor tende a ser o valor da simples intermediação.

Por outro lado, isso abre espaço para novos modelos.

Costumo dizer que toda ventania traz um pânico e traz uma oportunidade.

Centrais de compras, consolidação de mercadorias, hubs logísticos, armazenagem e estruturas compartilhadas na China podem ajudar empresas menores a alcançar uma eficiência que dificilmente conseguiriam individualmente.

O intermediário continua existindo. Mas deixa de gerar valor apenas porque conhece o caminho e passa a gerar valor porque consegue organizar melhor esse caminho.

A vantagem competitiva está migrando do acesso para a inteligência

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Encontrar fábricas está mais fácil. Comparar produtos está mais fácil. Conversar com fornecedores está mais fácil. Ferramentas de inteligência artificial, plataformas B2B, tradução automática e sistemas digitais estão reduzindo assimetrias de informação que existiram durante décadas.

Isso não significa que fazer comércio exterior ficou simples.

Na realidade, quanto mais fácil se torna acessar fornecedores e produtos, maior pode ser a importância de saber o que comprar, de quem comprar, como estruturar a operação e onde estão os riscos.

A vantagem competitiva não desapareceu.

Ela mudou de lugar.

Sai progressivamente do simples acesso à informação e passa para inteligência, conhecimento, eficiência operacional e capacidade de tomar boas decisões.

E se o seu fornecedor puder chegar ao seu cliente?

O movimento do Mercado Livre na China é apenas um dos sinais dessa transformação.

Plataformas estão se aproximando dos fabricantes. Fabricantes estão encontrando novos caminhos para chegar aos mercados consumidores. Tecnologia está reduzindo barreiras de comunicação e a logística internacional continua evoluindo.

Não sabemos ainda até onde essa transformação chegará no Brasil. Seria precipitado afirmar que ela eliminará modelos tradicionais de distribuição.

Mas existe uma pergunta que considero importante para qualquer empresa que trabalhe entre a fábrica e o mercado:

Por que o cliente precisa de você nessa cadeia?

Se a resposta for apenas “porque conseguimos importar”, talvez seja hora de repensar o modelo.

Se envolver conhecimento, inteligência, segurança, eficiência, marca, serviço e capacidade de organizar uma operação que o cliente dificilmente conseguiria estruturar sozinho, existe muito espaço para continuar gerando valor.

A China não está ficando geograficamente mais próxima do Brasil.

Comercialmente, porém, essa distância está diminuindo.

E talvez seja exatamente aí que estejam alguns dos maiores riscos e oportunidades dos próximos anos no comércio internacional.

João Rezende
Oriental Comex