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Brasil e Índia: o comércio bilateral entra em uma nova fase

Recorde de comércio, expansão do acordo Mercosul–Índia e investimentos colocam a relação entre os dois países em um novo patamar

Durante décadas, quando empresas brasileiras olharam para a Ásia, a China ocupou naturalmente o centro das atenções. Mas observar a região apenas pela perspectiva chinesa pode esconder movimentos importantes. A Índia é hoje um dos exemplos mais relevantes.

Em 2025, o comércio bilateral entre Brasil e Índia alcançou aproximadamente US$ 15 bilhões, crescimento de 25,5% sobre o ano anterior e o maior valor da série histórica. As exportações brasileiras também bateram recorde, chegando a US$ 6,9 bilhões.

Mais importante que o número é o movimento por trás dele: Brasil e Índia buscam transformar uma relação comercial crescente em uma parceria econômica mais profunda.

Por que a Índia merece atenção?

Com cerca de 1,46 bilhão de habitantes e uma das maiores economias do mundo, a Índia combina mercado consumidor, expansão industrial, demanda por energia e alimentos, capacidade tecnológica e uma indústria farmacêutica relevante.

Segundo o Banco Mundial, a economia indiana permanece entre as grandes economias de crescimento mais acelerado. Para o FY27, a instituição projeta expansão de 6,6%.

Existe ainda uma complementaridade importante. O Brasil possui vantagens competitivas em agricultura, alimentos, energia, mineração e recursos naturais, enquanto a Índia desenvolveu competências em tecnologia, medicamentos, máquinas, serviços e manufatura.

Isso abre espaço não apenas para exportações, mas para novas cadeias de fornecimento, investimentos e projetos conjuntos.

Do recorde de US$ 15 bilhões à meta de US$ 20 bilhões

Brasil e Índia estabeleceram a meta de elevar o comércio bilateral para US$ 20 bilhões até 2030. O desafio, porém, não está apenas em aumentar o volume, mas em diversificar a relação.

Informações divulgadas pelo MDIC, a partir de estudo da ApexBrasil, apontam centenas de oportunidades relacionadas ao mercado indiano em áreas como minerais, máquinas, alimentos, tecnologias em saúde e energias renováveis.

A Índia, portanto, não deve ser vista somente como destino para commodities.

O acordo Mercosul–Índia pode mudar esse cenário

O Acordo de Comércio Preferencial Mercosul–Índia está em vigor desde 2009, mas ainda possui alcance limitado: contempla preferências tarifárias para 450 linhas ofertadas pela Índia e 452 itens pelo Mercosul.

Em 2025, os países avançaram nas negociações para ampliar o acordo.

Para quem atua em comércio exterior, isso vai além da diplomacia. Mudanças tarifárias podem alterar custos, formação de preços, sourcing e a competitividade de operações inteiras.

A relação também avançou nos investimentos. Em outubro de 2025, o Brasil promulgou o Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos com a Índia, criando novos mecanismos de interlocução e facilitação entre governos e investidores.

Índia não é uma “segunda China”

Para empresas brasileiras, esse talvez seja o ponto mais importante.

A Índia não deve ser tratada simplesmente como alternativa à China. São ambientes industriais, culturais, logísticos e regulatórios diferentes. Uma estratégia de sourcing desenvolvida para fornecedores chineses não pode ser automaticamente transferida para o mercado indiano.

Diversificar também não significa simplesmente trocar um fornecedor por outro. É necessário avaliar capacidade industrial, infraestrutura, qualidade, certificações, regras de origem, tarifas, lead time, logística e custo total da operação.

A China continuará sendo central nas cadeias asiáticas. Mas compreender a Ásia contemporânea exige olhar além dela.

E, entre os mercados que merecem entrar no radar das empresas brasileiras, a Índia está se tornando cada vez mais difícil de ignorar.

Fontes